Qual é o objecto de estudo da Linguística?

0 visualizações

Em suma, a Linguística, segundo Saussure, foca-se na língua como um sistema estruturado e coerente. Benveniste, por outro lado, propõe que o objeto de estudo seja a língua em uso, no ato da enunciação, ou seja, a língua manifestada na fala e na comunicação, priorizando a análise do discurso e da pragmática.

Feedback 0 curtidas

Desvendando o Objeto de Estudo da Linguística: Uma Jornada Além da Língua

A linguística, essa ciência fascinante que se debruça sobre a linguagem humana, carrega em seu cerne uma questão fundamental: qual é, afinal, seu objeto de estudo? A resposta, longe de ser simples e unívoca, revela a complexidade e a riqueza da própria linguagem. Mais do que uma mera busca por definições, essa investigação nos convida a explorar as diferentes perspectivas que moldaram e continuam a moldar o campo da linguística.

Tradicionalmente, a linguística se concentrou na língua como um sistema abstrato, um conjunto organizado de regras e convenções que permitem a comunicação. Ferdinand de Saussure, considerado um dos pais da linguística moderna, solidificou essa visão, enfatizando a importância de analisar a língua como uma estrutura autônoma e coerente, um sistema de signos interdependentes. Para Saussure, a língua é um sistema sincrônico, ou seja, analisado em um determinado momento, sem se preocupar com sua evolução histórica. O foco reside na relação entre os signos (significante e significado) e na forma como eles se organizam dentro do sistema linguístico.

No entanto, essa abordagem estruturalista, embora fundamental para o desenvolvimento da linguística, não abarcava a totalidade do fenômeno linguístico. Críticas surgiram, questionando a ênfase excessiva na abstração e a negligência do uso real da língua em contextos sociais e comunicativos. Foi nesse cenário que a perspectiva de Émile Benveniste ganhou relevância.

Benveniste propôs um deslocamento do foco da língua como sistema para a língua em uso, no ato da enunciação. Para ele, o objeto de estudo da linguística não é apenas a estrutura abstrata da língua, mas também a forma como ela é efetivamente utilizada na comunicação, na interação social, no discurso. A língua, portanto, é vista como algo dinâmico, moldado e transformado pelo seu uso constante pelos falantes.

Essa mudança de perspectiva abriu caminho para o desenvolvimento de novas áreas dentro da linguística, como a análise do discurso, a pragmática e a sociolinguística. A análise do discurso, por exemplo, se dedica a investigar como a língua é utilizada para construir significados e relações de poder em diferentes contextos sociais. A pragmática, por sua vez, se concentra em estudar como o contexto influencia a interpretação das mensagens, explorando as intenções dos falantes e os efeitos da linguagem em seus interlocutores.

É importante ressaltar que as perspectivas de Saussure e Benveniste não são mutuamente exclusivas, mas sim complementares. A análise da língua como sistema continua sendo fundamental para compreendermos a estrutura e o funcionamento da linguagem, enquanto a análise da língua em uso nos permite entender como essa estrutura é adaptada e transformada para atender às necessidades comunicativas dos falantes em diferentes contextos.

Portanto, o objeto de estudo da linguística pode ser visto como um espectro amplo e complexo, que abrange desde a estrutura abstrata da língua até o seu uso dinâmico e contextualizado na comunicação humana. A linguística, em sua busca incessante por compreender a linguagem, se depara com um objeto multifacetado, que exige abordagens teóricas e metodológicas diversas e complementares. A beleza da linguística reside justamente nessa capacidade de se reinventar e de ampliar seus horizontes, explorando cada vez mais a fundo os mistérios da linguagem humana. Ao invés de escolher entre a língua como sistema ou a língua em uso, a linguística moderna busca integrar essas perspectivas, buscando uma compreensão mais completa e nuanceda do fenômeno linguístico.